Estar no escuro é uma situação que vai contra ao instinto do ser humano: gera medo, receio, aflição. Já imaginou fazer uma refeição na escuridão total? A primeira coisa que vem à mente é “mas como vou saber o que estou comendo?”. Pois é… não vai. Essa é a premissa do restaurante Dans Le Noir?: comer no escuro e ter uma experiência completamente diferente, um processo sensorial, quase pedagógico. Fundado em Paris, em 2004, e hoje com restaurantes em Londres, Moscou, Nova York e Barcelona, o Dans Le Noir? é um dos restaurantes “às cegas” no mundo. Outros já existem, como o O.noir, em Montreal, no Canadá, que também tem franquias em outras cidades, e até mesmo o Ateliê no Escuro, em São Paulo, que não dispõe de uma sede física, mas realiza os jantares “cegos” como eventos, em espaços privados. O principal objetivo destes estabelecimentos, além de ampliar a experiência trivial de comer, ocultando a visão e aguçando os demais sentidos, é chamar a atenção para a deficiência visual. Ainda que não seja o único no mundo, o Dans Le Noir? de Londres é o maior restaurante escuro em funcionamento hoje. Com espaço para 60 pessoas sentadas em seu salão e 20 garçons deficientes visuais – pois não há pessoas que trabalhem melhor em tais circunstâncias – conseguir jantar lá pode exigir uma espera de duas semanas ou mais. E caso você esteja se perguntando: a cozinha é iluminada e todos os chefs vêem o que estão fazendo. danslenoir2.jpg A designer Ana Carolina Oliveira, 27 anos, teve a oportunidade de jantar com uma amiga no Dans Le Noir? de Londres. Segundo a designer, há um bar ainda iluminado, antes do salão de jantar. Neste ambiente, você pode escolher seu cardápio. Há quatro opções: azul (frutos do mar), verde (vegetariano), vermelho (carne vermelha) e branco (surpresa completa). Além disso, você escolhe se quer entrada, prato principal e sobremesa, ou se só prato principal e sobremesa. Se decidir tomar vinho, a escolha também é por conta da casa, harmonizado com seu prato. Um dos slogans do Dans Le Noir? é: “não perguntamos o que você quer comer, e sim o que não pode comer”. Assim, alergias e eventuais problemas com alimentos são esclarecidos antes da entrada. Sem perigos. Ana Carolina e sua amiga escolheram apenas o prato principal e a sobremesa, no cardápio vermelho. Depois disso, ela conta: “um garçom deficiente visual veio para nos levar ao salão principal. Fomos em fila indiana junto com os outros clientes, e o garçom puxou nossas cadeiras e nos sentou. Depois disso, disse que nosso pedido chegaria logo”. No ambiente alegre, animado, com músicas pop – como Madonna – é possível ouvir risadas e altas conversas. Talvez para quebrar a ansiedade de não saber o que se vai comer e não enxergar nada à sua volta. Ana disse que “não é escuro que você consegue ver uma silhueta aqui e ali, é escuridão completa, total mesmo”. Os pratos chegam e a curiosidade é tanta que a primeira coisa a se fazer é tocar na comida. Até para saber como comer, não é mesmo? O jantar das duas amigas foi um prato de carne vermelha com osso, purê de batatas e ervilhas, seguido de crème brûlée. “Muitas vezes a gente levou o garfo vazio à boca. Depois foi se acostumando com o peso, sentindo a comida no talher”, disse Ana. E deu para sentir, realmente, como é não poder enxergar? “Sim”. Durante todo o jantar – que durou por volta de uma hora – o garçom se assegurava de que as duas estavam bem. A preocupação com a segurança dos clientes é grande por parte do Dans Le Noir?, já que alguns, mesmo que poucos, podem se sentir desconfortáveis no escuro. Para os curiosos, Ana Carolina não forneceu nenhum dos dados – tamanho do salão, quantidade de garçons, chefs trabalhando numa cozinha iluminada. E nem podia: a experiência é realmente no escuro. Sem nenhuma chance de uma luzinha de celular brilhar – até porque você o deixa guardado com seus demais pertences em um armário antes de entrar no restaurante. danslenoir3.png




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